AUDITORIA E NOVOS PARADIGMAS

    A transição econômica, cultural e social pela qual atravessa o Brasil, enseja uma mudança no perfil de país reconhecidamente pouco auditado. Vivemos o momento das auditorias, momento este definido não pela onda de fusões, privatizações e escândalos financeiros, mas pela necessidade de mais controle e planejamento.
    Demandada até pouco tempo atrás pelas empresas apenas em situações de obrigatoriedade legal ou estatutária ou ainda para prevenção ou solução de litígios, a auditoria vem galgando espaços junto às entidades, num processo natural de reconhecimento do seu valor e de crescente domínio da cidadania.
    Caminhamos rumo à maturidade como país, processo este caracterizado pelo aumento da consciência ecológica, pelo reconhecimento dos direitos do consumidor e pelo despertar para a responsabilidade social das empresas. Reconhecemos que ainda nos falta muito, pois tais preocupações ainda não estão totalmente incorporadas ao quociente coletivo. Nesse aspecto, as auditorias podem ter uma função social e pedagógica.
    Plenamente recuperadas dos episódios que envolveram o Banco Nacional, o Econômico e o Barings na Inglaterra, os quais na década de 90 marcaram um período de descrédito da atividade, as auditorias aprimoraram suas técnicas e buscaram novos nichos de mercado, antes restrito às companhias abertas e instituições financeiras.
    A evolução tecnológica que a auditoria vem experimentando nos últimos anos é uma resposta a estas necessidades ambientais. O refinamento constante dos instrumentos de análise, tem proporcionado a expansão de suas áreas de atuação e diversificação dos serviços. A avaliação da qualidade das informações passa a abranger tanto dados financeiros quanto não financeiros, alcançando desta forma, todos os negócios e operações da empresa. Dois dos principais organismos mundiais normatizadores da contabilidade e auditoria, o AICPA (American Institute of Certified Public Accountants) e o IFAC (International Federation of Accountants), discutem atualmente estes novos serviços de auditoria, denominados Assurance Services.
    A competitividade é o elemento catalizador deste processo, caracterizada pela concorrência acirrada tanto dentro do segmento de auditoria e em relação às atividades correlatas quanto pela busca de êxito das empresas-cliente preocupadas com a sobrevivência no mercado.
    Formas inusitadas de operar negócios, constituem o pano de fundo destas mudanças. Terceirização de atividades que não sejam core business da empresa, e-commerce, dentre outros, requerem serviços de garantia da qualidade das informações em tais operações.
    Se as tecnologias de gestão amplamente difundidas no meio empresarial e acadêmico, tais como downsizing, reengenharia, dentre outras, representaram em determinado momento notáveis benefícios para as empresas, por outro lado, deixaram como resultado, significativa redução de controles.
    A retração no Sistema de Controles Internos das empresas, notadamente no que diz respeito à delimitação de responsabilidades e segregação de funções, aumentou a possibilidade de fraudes e o risco de auditoria. Tal desafio, ao contrário de uma ameaça, foi interpretado pelos auditores como uma oportunidade de revisar seus procedimentos.
    Atualmente os auditores buscam agregar mais fatores de confiança ao conhecimento do negócio da empresa, através do uso da tecnologia da informação e da gestão globalizada do conhecimento. Desta forma, até mesmo a auditoria tradicional das demonstrações contábeis adquiriu a flexibilidade necessária, sem negligenciar todavia, o rigor e a perspectiva de responsabilidade pública exigida para a mesma.
    O considerável aumento no nível de consciência política e social do povo brasileiro, ensejando a necessidade de mais accountability (prestação de contas) transparência, credibilidade e ética nos negócios, também favorece a expansão da atividade.
    A aprovação da nova lei das Sociedades Anônimas, ampliando para as sociedades de grande porte, as exigências aplicáveis às companhias abertas, inclusive auditoria independente, nos parece um indício de que estamos alcançando uma posição condizente com a potencialidade do país.
    O maior controle social e fiscal conferido por esta lei, a despeito do distanciamento de um patamar desejável, está vinculado ao atendimento a esta demanda crescente por credibilidade, oriunda não apenas dos investidores, como também da sociedade como um todo.
    A discussão acerca do nível adequado de evidenciação (disclosure), passa também pelo crivo da auditoria. Qual o nível de evidenciação necessária para investidores, governo e analistas? A informação deve ser elaborada sob medida para cada grupo de interesse ou de forma igualitária, sem restrições a determinados usuários? Nos Estados Unidos já existe regulamentação da SEC (Securities Exchange Committee), a CVM americana, cuja opção é a informação sem distinção tanto para pequenos quanto para grandes investidores e analistas financeiros.
    Tanto no Brasil, onde a evidenciação é mais um compromisso pessoal do que uma obrigação, cujo objeto de atenção deve ser a omissão de informações importantes e até mesmo a clareza destas informações, quanto nos Estados Unidos onde há uma norma específica, cuja verificação consiste na existência ou não de informações privilegiadas, se faz premente a necessidade de um profissional independente para avaliá-la.
    A oferta de serviços de auditoria hoje é bastante diversificada, inclui desde o tradicional serviço de certificação das demonstrações contábeis fundamentado num profundo conhecimento dos negócios do cliente e os riscos aos quais está sujeito, passando por serviços direcionados para empresas de médio e pequeno porte até serviços de auditoria ambiental.
    Diante dos novos paradigmas econômicos, sociais e organizacionais que se impõem, o papel de destaque não está reservado unicamente aos auditores independentes. Auditores internos e auditores públicos exercem função vital no processo de auxiliar as empresas na superação de desafios advindos de uma dinâmica global de difícil acompanhamento e da reorganização do Estado Brasileiro através da reforma tributária, reforma administrativa, lei de responsabilidade fiscal, dentre outras.
    O impacto das mudanças na sociedade certamente está se refletindo tanto sobre as empresas da área privada, quanto no âmbito governamental, quer seja pela necessidade de reformulação do modelo de gestão, quer seja pelo cultivo da ética. Os aspectos da eficiência, eficácia e economicidade se sobressaem frente à nova ordem e a avaliação sistemática dos mesmos representa a contribuição dos auditores para um país mais idôneo, justo e melhor administrado.
    Pelo seu alcance e abrangência, a procura por este serviço de auditoria multiqualificada tende a se acentuar e se consolidar como uma poderosa ferramenta de auxílio para consecução de margem competitiva exigida para que governo e instituições possam enfrentar os desafios presentes e vindouros.

Ruth Carvalho de Santana Pinho - (rcspinho@ufc.br)
Publicado na Gazeta Mercantil - Caderno Ceará/Piauí - 19.06.2001